quinta-feira, 11 de julho de 2013

ESTUDO COMPARATIVO ENTRE ENCÉFALOS DE BOVINOS SUBMETIDOS A DUAS TÉCNICAS DE CONSERVAÇÃO: FORMOLIZAÇÃO E GLICERINAÇÃO



NASCIMENTO, Eduardo Michelon do
Acadêmico do Curso de Medicina Veterinária da UFPR/Campus Palotina – PR
eduardo.michelon@ufpr.br
PESSOA, Lindomar Fernandes
Acadêmico do Curso de Medicina Veterinária da UFPR/Campus Palotina – PR
FAVARETTO, Luísa
Acadêmico do Curso de Medicina Veterinária da UFPR/Campus Palotina – PR
FILADELPHO, André Luiz
Docente do Curso de Medicina Veterinária da UFPR/Campus Palotina – PR
BIRCK, Arlei José
Docente do Curso de Medicina Veterinária da UFPR/Campus Palotina – PR
BARCELOS, Rodrigo Patera
Biólogo do Laboratório de Anatomia Veterinária da UFPR/Campus Palotina – PR
GRUCHOUSKEY, Leonardo
Anatomia Patológica e Laboratório Clínico da UFPR/Campus Palotina – PR

RESUMO
O objetivo deste trabalho consiste na descrição e aplicação da técnica de glicerinação em encéfalos bovinos, afim de que os mesmos mantenham-se com o aspecto de peças “in vivo” conferindo-lhes maior poder de durabilidade e maleabilidade, diminuindo assim, o aparecimento de fungos e outros microorganismos que levam a deterioração das peças, o qual se torna suscetível quando empregado apenas a técnica de formolização. Tem como intuito também, facilitar o estudo prático da anatomia mantendo a peça conservada semelhante à peça original, evidenciando estruturas de difícil visualização antes raramente vistas pelo método de formolização.

INTRODUÇÃO
A conservação de peças anatômicas remonta os povos da antiguidade, que buscavam de forma detalhada e pacienciosa o estudo do corpo de homens e animais, suas demais vísceras, preservando-as por longos períodos sem que as mesmas se deteriorassem.
Hoje, a preocupação em se manter as peças intactas está diretamente ligada às universidades que se utilizam desses métodos para a difusão do ensino, ajudando no aprendizado dos alunos. Vários métodos podem ser aplicados para a conservação e fixação de cadáveres, entre eles, o mais difundido é o de conservação pelo formaldeído, por possuir uma alta penetração nos tecidos. Segundo Leite (1979), os métodos de
conservação para os diferentes tecidos animais podem ser classificados em duas grandes categorias: os que mantêm a vitalidade celular e os que não mantêm, e a glicerina encaixa-se na primeira.
Visto que, em peças formolizadas, desenvolve-se uma alta quantidade de fungos em sua superfície e que estes causam sérias irritações nas mucosas do trato respiratório e pele de quem as manuseia, começou-se a optar pelo método da glicerinação ou técnica de Giacomini, onde a glicerina é capaz de desidratar e ao mesmo tempo manter a integridade celular.
A glicerina apresenta como vantagem o baixo custo, além de reduzir a antigenicidade, preservar a textura do tecido e aumentar a resistência à tração sem alterar o grau de elasticidade (PIGOSSI, 1967).
De acordo com MONTEIRO (1960), a glicerinação ou técnica de Giacomini permite uma melhor preservação com as vantagens de peças anatômicas mais leves; esteticamente melhores; conservação média das peças semelhantes a da formalização; baixo custo e facilidade no manuseio das mesmas (SILVA et al., 2008).
No ano de 1995 a Agência Internacional de Pesquisa em Câncer classificou o Formaldeído como cancerígeno. Neste contexto, procurando outros métodos alternativos para a fixação e conservação de cadáveres e peças anatômicas, a glicerinação, solução de cloreto de sódio, solução de Larssen, entre outras, acabam se tornando novas alternativas eficazes e menos agressivas para a substituição do uso de
formaldeído, sabidamente prejudicial à saúde. (VERONEZ et al., 2009).
Após se obter a desidratação do material biológico pelo método da glicerinação, observa-se que não se altera a concentração iônica das células, o que mantém a integridade celular, reduzindo assim, a antigenicidade dos tecidos conservados (PIGOSSI, 1964). Contudo é importante ressaltar que para a realização da técnica de glicerinação não se abandona totalmente o uso do Formol, pois em uma das etapas da glicerinação, o uso do mesmo se faz necessário para a prefixação do material a ser utilizado.

MATERIAL E MÉTODOS
O material utilizado foi composto por 20 cabeças de bovinos sem raça definida (SRD), oriundas de abatedouro comercial do município de Palotina – PR entre os meses de março a maio de 2011.
Mediante a chegada das cabeças ao Laboratório de Anatomia, as mesmas foram lavadas e dissecadas para que se desse início a abertura do crânio para a retirada do encéfalo. Após a extração, os encéfalos foram fixados em solução aquosa de formol a 10% durante 3 meses, em seguida foram dissecados para a retirada de coágulos e vasos sanguíneos. Após este processo, 10 encéfalos foram mantidos na solução de formol a
10% para posterior análise comparativa e os outros 10 foram submetidos ao método de glicerinação, composto por tres fase: (1) Desidratação I (2) Desidratação II e (3) Glicerinação, com duração de aproximadamente 45 dias.
Para o processo de glicerinação, os encéfalos são retirados da solução de formaldeído, lavados em água corrente e escorridos com no mínimo 24 horas de antecedencia antes de passarem pela etapa inicial do processo que compreende a fase de desidratação I, onde as peças são submersas em solução contendo sal de cozinha na proporção de 1 kg de sal para 10 litros de água por 15 a 20 dias. O sal de cozinha, retira
parte da água presente no interior do tecido, e por ser um conservante, impede o surgimento de bactérias que levam a deterioração das peças.
Ao término da fase de desidratação I, os encéfalos foram novamente submetidos ao processo de escorrimento e secagem antes de darem início à etapa de desidratação II, onde o material permanece pelo mesmo período de tempo em solução de álcool 70%  com o mesmo propósito da desidratação I
Na última etapa do processo, as peças foram mergulhadas em glicerina líquida e após 15 dias, os encéfalos resultantes desta técnica foram fotodocumentados e comparados aos que permaneceram na solução de formaldeído.

RESULTADOS
Nos 10 encéfalos submetidos ao processo de glicerinação, verificamos que estes, ao serem comparados aos que permaneceram na solução de formaldeído, se mostraram mais fáceis de serem manuseados, apresentando menor intensidade de odor, menor peso e menor risco à saúde humana.
A técnica facilitou o estudo prático da anatomia por conferir as peças glicerinadas excelente resultado estético e morfológico, proporcionando aos alunos maior clareza do material e fácil identificação de determinadas estruturas presentes na literatura. A seguir, as fotos do material em sua forma natural , após 3 meses em solução de formaldeído 10% e após o processo de glicerinação.
Figura 1. Foto do encéfalo “in vivo” antes da formolização.

Comparando os encéfalos provenientes da técnica de glicerinação com os que permaneceram na solução de formaldeído a 10%, concordamos com o que Monteiro (1960) fala sobre os benefícios da técnica de Giacomini e verificamos que após se obter a desidratação do material biológico pelo processo de glicerinação, a concentração iônica das células não se altera, o que mantém a integridade celular, reduzindo assim, a antigenicidade dos tecidos conservados corroborando também com o resultado obtido
por PIGOSSI (1964).
A utilização de produtos menos agressivos ao meio ambiente (diminuição e eliminação de vapores prejudiciais à natureza) e aos manipuladores, vem sendo recomendada pelos órgãos de saúde devido à inalação de produtos como o formaldeído, utilizado na preservação de peças e que ao atingir níveis acima de 10 ppm (partes por milhão) acarreta tosse, irritação do trato respiratório, dispnéia e espasmo da laringe.
Exposições graves acima de 20 ppm podem causar bronquite asmática, edema pulmonar e pneumonia. Em casos severos acima de 50 ppm, ocasiona apatia, perda da consciência e óbito.
Segundo o Instituto Nacional do Câncer (INCA, 2009) um fator preocupante são as propriedades mutagênicas e carcinogênicas do formaldeído. Sob esta perspectiva, MONTICELLO et al. (1989), estudando lesões no trato respiratório em macacos Rhesus após a exposição em formaldeído identificaram degeneração precoce e leve metaplasia escamosa presente no epitélio das fossas nasais, epitélio traqueal e brônquios principais.
Os animais expostos ao ambiente de 6 ppm com formaldeído, apresentaram proliferação celular dezoito vezes maior que o grupo dos animais expostos ao ar ambiente.
HAYASAKA et al. (2001), relataram que o contato entre o formaldeído e os olhos causa danos à retina e ao nervo óptico. Os riscos relatados por WOOD E COLEMAN (1995) do formaldeído em contato com a pele incluem irritação e ressecamento da mesma, aparecimento de fissuras, vermelhidão, alteração na tonalidade das unhas, dermatite por contato e necrose da epiderme que pode se agravar com a
transpiração e o calor. COSTA et al. (2008), relataram efeitos genotóxicos em  trabalhadores expostos ao formaldeído nos laboratórios de Anatomia Patológica.
Sob esta perspectiva, não podemos desconsiderar o que afirma VERONEZ et al. (2009) sob a substituição do formaldeído por outros métodos alternativos para a fixação e conservação de cadáveres e peças anatômicas.
CONCLUSÕES
Conclui-se, portanto, que a glicerina é um ótimo substituto para o formaldeído na conservação de peças anatômicas, por conferir resultados estéticos e morfológicos melhores e, por ser um processo eficiente e menos tóxico, facilitando o manuseio de peças anatômicas por professores e alunos.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
COSTA, S.; COELHO, P.; COSTA, C.; SILVA, S.; MAYAN, O.; SANTOS, L.S.;
GASPAR, J.; TEIXEIRA, J.P. Genotoxic damage in pathology anatomy laboratory
workers exposed to formaldehyde. Toxicology.Amsterdam, v.252, p.40-48, 2008.
HAYASAKA, Y.; HAYASAKA, S.; NAGAK, Y. ocular changes alter intravitreal
injection of methanol, formaldehyde or formate in rabbits. Pharmacol Toxicol.
Copenhagen, v.89, n.2, p. 74-78, 2001
INSTITUTO NACIONAL DO CÂNCER (INCA). Formol ou Formoaldeído: banco de
dados. Disponível em: <http://www.inca.gov.br >. Acesso em 12 de março de 2012.
LEITE, J.B.F. et al. A glicerina e a preservação dos tecidos. Revista Paulista de
medicina, v.93,p-81-84, 1979.
MONTEIRO, A. U. Montagem de Parasitas, Artrópodes e Peças Anatômicas em
Meio Sólido. Rev. Inst. Meã. trov. São Paulo, 1960. Disponível em
<http://www.imt.usp.br/revista. Acesso em 12 de março de 2012.REVISTA CIENTÍFICA ELETRÔNICA DE MEDICINA VETERINÁRIA – ISSN: 1679-7353
Ano X – Número 19 – Julho de 2012 – Periódicos Semestral
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